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O Anel de Giges: seríamos justos se ninguém nos pudesse descobrir?

Filosofia e sociedade

Um pastor, um anel que torna invisível e uma pergunta que Platão deixou há mais de dois mil anos: o que fazemos quando ninguém nos vê?

Leitura de cerca de 10 minutos · Brevemito.com

Pastor da Grécia Antiga numa paisagem rochosa, com um anel de ouro na mão que começa a desaparecer, diante de uma abertura na terra e de uma caverna
O pastor da Lídia e o anel: o momento em que a sua mão começa a desaparecer.

Um anel e um escritório vazio

Imagina que, numa manhã qualquer em Maputo, na Beira ou em Nampula, encontras um anel antigo. Ao rodá-lo no dedo, reparas que ninguém olha para ti. Passas pelo balcão e ninguém reage. Acenas a um colega e ele continua a escrever. Estás invisível.

Podes agora entrar num escritório depois da hora de saída, abrir uma gaveta, ler um processo confidencial, guardar um maço de notas que não é teu. Podes ficar com uma vaga que outra pessoa merecia mais. Ninguém verá. Ninguém contará. Não ficará registo nenhum.

Se tivesses a certeza de que ninguém descobriria as tuas acções, continuarias a respeitar os direitos dos outros?

Antes de responderes depressa, vale a pena saber que esta pergunta tem 2400 anos e que ainda hoje incomoda quem a leva a sério.

A história que Gláucon conta a Sócrates

O episódio vem do Livro II da República, de Platão, e quem o conta não é Sócrates. É Gláucon, um dos seus interlocutores, que decide representar o lado mais duro da discussão.

Gláucon fala de um pastor ao serviço do rei da Lídia. Depois de uma chuvada enorme e de um terramoto, o chão abre-se no local onde ele apascentava o gado. O pastor desce à fenda e encontra maravilhas, entre elas um cavalo de bronze oco e, lá dentro, um cadáver de estatura maior do que a humana. O morto traz apenas uma coisa: um anel de ouro. O pastor leva-o.

Na reunião mensal em que os pastores prestavam contas ao rei, o homem roda sem querer o engaste do anel para dentro da mão. Os outros passam a falar dele como se tivesse saído da sala. Roda para fora e volta a ser visto. Experimenta, confirma, e trata de ser escolhido como mensageiro junto do rei. No palácio, seduz a rainha e, com a ajuda dela, mata o rei e fica com o reino.

Um pormenor que costuma perder-se

No texto de Platão o anel não está no dedo de ninguém vivo: encontra-se num cadáver, dentro de um cavalo de bronze, no fundo da fenda aberta pelo terramoto. E, segundo os manuscritos que chegaram até nós, o pastor é apresentado como antepassado de Giges, o lídio, e não como o próprio Giges. O episódio ficou conhecido pelo nome de Giges e é assim que o usamos aqui. Heródoto conta uma história parecida, mas sem o anel mágico.

Gláucon vai mais longe do que a lenda. Imagina dois anéis iguais, um para um homem justo e outro para um homem injusto. Duvida que alguém tivesse uma firmeza de ferro suficiente para não tocar no que é dos outros, quando o podia fazer sem consequências. Na opinião dele, os dois acabariam por fazer o mesmo.

O que este episódio não prova

Convém separar duas coisas. A história de Giges é um argumento, uma experiência de pensamento construída por Gláucon, e não uma demonstração de que todas as pessoas, em todas as épocas, agiriam como o pastor. O próprio Gláucon avisa Sócrates de que não acredita na tese que vai defender (República 358c). Quer apenas ouvi-la refutada a sério, sem truques.

Confundir a posição de Gláucon com a conclusão de Platão é o erro mais comum de quem lê o episódio fora do livro.

O que Gláucon está realmente a perguntar

Por baixo da lenda há três perguntas, e convém olhar para cada uma de frente.

Somos justos porque acreditamos na justiça ou porque receamos as consequências?

Segundo a visão que Gláucon apresenta, a maioria das pessoas pratica a justiça a contragosto. A lei nasceria de um pacto entre fracos: como ninguém consegue cometer injustiças sem também as sofrer, convém a todos combinar que ninguém as cometa. A justiça seria um meio-termo, aceite por falta de força para fazer melhor. O ideal, nesta leitura cínica, seria cometer injustiças sem castigo.

É uma ideia desconfortável porque explica muita coisa com pouco. E é por isso que precisa de resposta.

A nossa conduta mudaria se desaparecessem a fiscalização, a punição e o julgamento social?

Há pelo menos três maneiras de cumprir uma regra. Por conveniência: cumpro porque me dá jeito. Por medo: cumpro porque posso ser apanhado. E por convicção: cumpro porque reconheço que aquilo é o correcto.

Por fora, as três parecem iguais. Um condutor para no semáforo vermelho de madrugada, numa rua vazia. Pode ser porque há uma câmara, pode ser porque lhe dá jeito não arriscar, pode ser porque sabe que uma pessoa distraída podia estar a atravessar. Só o anel de Giges, ao retirar a câmara e o público, mostra qual das três era.

Uma pessoa que só age correctamente por medo de ser descoberta pode ser considerada verdadeiramente justa?

Para levar a pergunta ao limite, Gláucon faz uma segunda experiência. Pega num homem totalmente injusto que goza da melhor reputação de justo, e num homem totalmente justo que todos tomam por injusto. Ao primeiro sobram honras, cargos e prémios. Ao segundo, desprezo e castigos. Só assim, diz ele, se saberá se alguém é justo pela justiça ou pelos elogios que ela traz.

O que Gláucon quer saber é simples e radical: o que sobra da justiça quando lhe retiramos tudo o que a rodeia?

E se o Anel de Giges existisse em Moçambique?

Passemos da Lídia para o nosso quotidiano. Nas situações que se seguem não há culpados, instituições nem grupos apontados: são perguntas hipotéticas que qualquer pessoa pode fazer a si própria.

Figura humana diante de uma carteira com dinheiro num espaço vazio, sem testemunhas, enquanto uma mão segura um anel antigo
Sem testemunhas, a decisão volta a ser só de quem a toma.
  • Dinheiro público Quem administra recursos que são de todos (o fundo de uma escola, o orçamento de uma obra, o combustível de uma viatura de serviço) tomaria as mesmas decisões se soubesse que nenhuma irregularidade seria detectada?
  • Exames escolares Um estudante copiaria se tivesse a garantia de que não seria apanhado? E o que sente quem estudou três semanas ao ver o colega passar sem esforço?
  • Oportunidades de emprego Perante dois candidatos, um responsável pela escolha favoreceria o familiar menos preparado, ignorando os critérios de mérito, se ninguém pudesse contestar a decisão?
  • Transportes e serviços Respeitarias a fila, a sinalização ou o passageiro que chegou primeiro quando ultrapassá-los não custasse nada e ninguém estivesse a fiscalizar?
  • Redes sociais Com uma conta sem nome, quem divulgaria uma mentira, um insulto ou uma acusação falsa? O anonimato é, em boa medida, a versão digital do anel.
  • Vida quotidiana Quem encontrasse uma carteira com dinheiro e documentos no chão devolveria tudo e procuraria o dono, sabendo que ninguém viu?

Importante

Estes exemplos são instrumentos de reflexão. Não dizem nada sobre a frequência com que estes comportamentos acontecem em Moçambique, e por isso este artigo não apresenta estatísticas sobre corrupção, fraude, educação ou confiança pública. Dados desse tipo só devem ser citados com origem, data e contexto bem identificados.

O problema não é apenas o carácter individual

Seria cómodo concluir que o assunto é simples: há pessoas boas e pessoas más. A filosofia, e a experiência de qualquer sociedade, sugerem que é mais complicado. A consciência moral também se forma. Forma-se em casa, na escola, nos exemplos que vemos, no que é recompensado e no que sai caro. Uma criança que vê a batota ser premiada aprende uma lição, e não é a que os professores queriam ensinar.

Por outro lado, nenhuma sociedade pode viver só da boa vontade de cada um. Regras claras, decisões que se podem consultar, fiscalização imparcial, canais para denunciar sem represálias e consequências iguais para todos funcionam como o contrário do anel: tornam o acto visível. Não porque desconfiemos de toda a gente, mas porque a virtude mais firme também agradece não ser testada todos os dias.

Balança da justiça num cenário que combina elementos arquitectónicos discretos de uma cidade africana contemporânea com uma referência visual à Grécia Antiga
Ética individual e responsabilidade pública: duas metades da mesma balança.

O inverso também é verdade. Leis e castigos não substituem a consciência. Nenhum fiscal está em todo o lado e quem procura uma brecha costuma encontrá-la. Uma sociedade onde o único motivo para não roubar fosse o medo da câmara estaria, no fundo, à espera do próximo anel.

Este artigo não acusa nenhum partido, instituição ou grupo. A discussão que interessa é de princípio: que combinação de consciência, educação e instituições torna uma sociedade mais justa?

O contraponto de Sócrates

Sócrates é encurralado, e admite-o. Diz que o que Gláucon expôs bastava para o deixar sem resposta, mas que seria quase uma impiedade ficar calado enquanto a justiça é desacreditada. Adeimantus, irmão de Gláucon, reforça o desafio: lembra que pais e educadores costumam elogiar a justiça pelos prémios e pela reputação que ela traz, quase nunca por si própria.

Os dois irmãos pedem o mesmo. Que Sócrates mostre o que a justiça faz, por si só, a quem a possui, mesmo que ninguém saiba e que nenhum elogio chegue.

A resposta não vem no episódio do anel. Sócrates começa por um desvio: procurar a justiça primeiro na cidade, que é maior e mais fácil de ver, e só depois na alma de cada pessoa. Nos livros seguintes, defende que a alma humana tem três partes (razão, ânimo e apetite) e que a pessoa justa é aquela em que cada parte cumpre a sua função, sob o governo da razão. A justiça deixa de ser uma obrigação imposta de fora e passa a parecer uma espécie de saúde da alma. No Livro IX, compara a vida do tirano, escravo dos seus desejos e cheio de desordem, arrependimento e medo, com a do filósofo.

Terá Sócrates vencido? Os especialistas ainda discutem. A própria Stanford Encyclopedia of Philosophy aponta lacunas, por exemplo na ligação entre uma alma equilibrada e as acções justas concretas. O que se pode dizer sem exagero é que Platão levou o desafio de Gláucon tão a sério que fez dele o ponto de partida do resto da obra.

Pessoa diante de duas possibilidades: aproveitar uma vantagem injusta sem ser observada ou agir correctamente sem receber qualquer reconhecimento
Duas saídas possíveis, e só uma delas dá aplausos.

O teu Anel de Giges

«Se tivesses o poder de ficar invisível e a certeza de que nunca serias descoberto, o que mudaria no teu comportamento?»

  1. Continuaria a respeitar os outros e os seus direitos.
  2. Sentir-me-ia tentado a aproveitar algumas oportunidades.
  3. Provavelmente faria coisas que hoje não faria.
  4. Não sei como reagiria.

Não há respostas certas nem erradas, e isto não é um teste psicológico: é só um espelho. Escreve nos comentários o número que mais se aproxima de ti e, se quiseres, explica porquê.

Para levares contigo

No fim, a pergunta de Gláucon nem é sobre anéis.

Quando ninguém está a observar, o que nos impede de fazer aquilo que sabemos ser errado?

Talvez seja o medo. Talvez o hábito, a educação, a vergonha diante de alguém de quem gostamos. Talvez uma convicção que nem sabemos explicar. Queremos saber o que pensas: deixa a tua opinião nos comentários e envia este artigo a um amigo, a um colega ou a um estudante que goste destas discussões.

Referências

Fonte primária

  1. Platão. República, Livro II (episódio de Giges em 359b-360d; discurso de Gláucon em 357a-367e). Consulta digital: Perseus Digital Library, Tufts University. perseus.tufts.edu
  2. Platão. República, Livros II, IV e IX. O desafio inicial (Livro II) foi consultado no texto da referência 1; a análise da justiça na alma (Livro IV) e a comparação entre a vida justa e a injusta (Livro IX) são aqui resumidas a partir da referência 3.

Fonte secundária

  1. Brown, Eric. «Plato’s Ethics and Politics in The Republic». Stanford Encyclopedia of Philosophy. Primeira publicação em 1 de Abril de 2003; revisão substancial em 12 de Setembro de 2017. plato.stanford.edu

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