Freud achava que tudo era sexo?
A frase que todos repetem na brincadeira esconde uma teoria bem mais ambiciosa do que a piada deixa perceber.
Antes de rir da caricatura, vale a pena perceber o que Freud escreveu de facto sobre desejo, prazer e os limites que a vida em sociedade impõe a ambos.
Não exactamente. Para Freud, sexualidade não era sinónimo de acto sexual ou de reprodução. Era um conceito bem mais largo, ligado à libido, ao prazer, ao desejo e à forma como a mente lida com aquilo que quer e não pode ter livremente. Este artigo explica essa ideia sem a caricatura, mostra onde ela se torna controversa e onde continua a influenciar a forma como pensamos o inconsciente.
A frase que todos repetem
Quem já leu meia página sobre psicanálise ouviu a piada. Freud via sexo em tudo, dizem. No fumo de um cigarro, na forma de um edifício, no medo de uma criança do escuro. É uma frase que rende memes e que resume, mal, uma das teorias mais discutidas do século vinte.
O problema não é a piada em si. É que ela responde a uma pergunta errada. A pergunta interessante não é se Freud via sexo em tudo. É outra, bem mais incómoda: se sexualidade não significa apenas o acto sexual, o que raio queria ele dizer com essa palavra?
É essa a pergunta que conduz este artigo.
O que Freud entendia por sexualidade
Freud usa a palavra sexualidade de um modo que já não corresponde bem ao uso comum que fazemos dela hoje. Para o senso comum, sexualidade é a relação sexual, o desejo genital, a reprodução, a vida sexual adulta. Para Freud, é isso e é também bastante mais.
No centro da teoria está a libido, o nome que Freud dá à energia psíquica ligada ao prazer. Essa energia não nasce pronta, dirigida apenas aos órgãos genitais e à idade adulta. Ela percorre um caminho, muda de alvo, encontra obstáculos, é redireccionada. A libido é movida por pulsões, forças internas que empurram o organismo em direcção ao prazer e ao alívio de uma tensão.
Prazer e desejo entram aqui como consequência directa dessa dinâmica. Sentimos desejo porque há uma pulsão a pedir satisfação; sentimos prazer quando essa satisfação, ainda que parcial, acontece. O que Freud acrescenta, e é o ponto mais difícil de engolir, é que este mecanismo já está activo muito antes da vida sexual adulta. Está activo na infância, num sentido que precisa de ser explicado com cuidado, e voltamos a isso já a seguir.
Há ainda dois conceitos que fecham o quadro: a repressão, o processo pelo qual certos desejos são afastados da consciência sem deixarem de existir, e a sublimação, a possibilidade de essa mesma energia ser canalizada para actividades que a sociedade valoriza, como a arte ou o trabalho intelectual. Nenhum destes seis termos, libido, pulsão, prazer, desejo, repressão, sublimação, é sinónimo dos outros. São peças de um mesmo mecanismo, e é o mecanismo, não cada peça isolada, que Freud chama de sexualidade.
Sexualidade, na teoria freudiana, é o nome para todo um sistema de desejo, prazer e satisfação psíquica, não apenas para o acto sexual em si.
Um impulso, um limite
Para tornar isto menos abstracto, vale a pena um exemplo que nada tem a ver com sexo.
Uma pessoa discute com um colega de trabalho e sente uma vontade imediata de o agredir. Não o faz. Existem regras da empresa, consequências para a carreira, valores pessoais sobre o que é aceitável e, mais fundo, um mecanismo interno que trava o impulso antes de ele se tornar acção.
Este exemplo pedagógico ajuda a ver a sequência que Freud propõe para qualquer impulso, sexual ou não: impulso, consciência do impulso, repressão ou controlo, e só depois, comportamento socialmente aceite. A raiva não desaparece por decreto quando alguém decide não bater. Ela é contida, redireccionada, talvez transformada numa frase seca ou num silêncio prolongado. É essa mesma lógica, aplicada ao desejo e ao prazer, que Freud usa para explicar como a sexualidade funciona dentro da vida psíquica.
Convém sublinhar que isto é um exemplo para compreender a teoria, não uma descrição universal e comprovada de como o cérebro humano funciona. A psicanálise oferece um modelo interpretativo, não um mapa neurológico verificado ponto por ponto.
A sexualidade que começa na infância
É aqui que a teoria de Freud se tornou mais difícil de aceitar, e continua a ser hoje. Nos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, publicados em 1905, Freud defende que o bebé já tem uma vida pulsional activa, organizada em torno de zonas do corpo que mudam com a idade. Chama a isto sexualidade infantil, e o termo, tirado do contexto, soa a acusação. Dentro do contexto, significa algo bem mais restrito: fontes de prazer corporal ligadas ao desenvolvimento, não actividade sexual no sentido adulto da palavra.
Freud descreve cinco fases. Cada uma organiza a libido à volta de uma zona diferente do corpo.
Exemplo quotidianoUm bebé que se acalma a chuchar no dedo muito depois de já estar saciado.
Interpretação freudianaA boca é, nos primeiros meses de vida, a principal fonte de prazer; sugar não serve só para alimentar, serve também para satisfazer.
Limite da teoriaA ligação directa entre este comportamento e a vida adulta é uma interpretação, não um facto observável.
Exemplo quotidianoA fase em que a criança começa a controlar os esfíncteres e descobre que pode reter ou libertar por vontade própria.
Interpretação freudianaFreud lê aqui uma das primeiras experiências de controlo do corpo e, por extensão, de poder sobre o ambiente à sua volta.
Limite da teoriaA ligação entre esta fase e traços de personalidade adultos, como o rigor ou a teimosia, nunca foi estabelecida de forma consensual fora da psicanálise.
Exemplo quotidianoA curiosidade infantil sobre diferenças corporais entre rapazes e raparigas, comum por volta dos três aos cinco anos.
Interpretação freudianaÉ nesta fase que Freud situa o complexo de Édipo, discutido mais à frente.
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Limite da teoriaÉ a fase mais contestada de todas, dentro e fora da psicanálise, por assentar em pressupostos sobre a diferença sexual hoje muito discutidos.
Exemplo quotidianoA criança em idade escolar que parece perder o interesse por essas questões e concentra a energia em amizades, escola e jogos.
Interpretação freudianaNão é ausência de pulsão, é a pulsão a ser canalizada para outras actividades, socialmente aceites.
Limite da teoriaÉ a fase que mais se aproxima de uma leitura sem grande controvérsia, precisamente por ser a menos ligada ao corpo.
Exemplo quotidianoA adolescência, quando o desejo se organiza finalmente à volta de outra pessoa e não apenas do próprio corpo.
Interpretação freudianaÉ a fase em que a sexualidade, tal como o senso comum a entende, finalmente se aproxima da definição que Freud usava desde o início, só que agora dirigida a outra pessoa.
Limite da teoriaCoincide, aqui sim, com a puberdade biológica reconhecida pela ciência actual.
Quando Freud fala de sexualidade infantil, está a falar de fontes de prazer corporal ligadas ao desenvolvimento, num sentido muito mais lato do que o significado comum que damos hoje à palavra sexualidade. Não é uma descrição de actividade sexual na infância.
O indivíduo contra as regras que aceitou
Se a libido empurra constantemente para a satisfação, e a vida em sociedade impõe normas, proibições, valores, leis, costumes e expectativas familiares, alguma coisa tem de ceder. Foi esta a questão que Freud desenvolveu de forma mais completa em O Mal-Estar na Civilização, publicado em 1930, uma das suas obras mais lidas fora dos círculos da psicanálise.
A pergunta que atravessa esse livro é simples de enunciar e difícil de responder: quanto daquilo a que chamamos civilização depende da renúncia do indivíduo à satisfação imediata dos seus desejos? Freud não trata isto como um mal a corrigir. Trata como um preço, talvez inevitável, que se paga para se viver ao lado de outras pessoas sem que tudo se transforme em conflito permanente.
Alguém sente uma atracção forte por uma pessoa com quem não deveria envolver-se, talvez por já estar comprometido, talvez por razões familiares ou profissionais. O desejo existe e é real. Mas também existem consequências, valores, relações que seriam afectadas, uma imagem de si próprio que a pessoa quer preservar. O interesse, para Freud, não está em decidir se a pessoa vai ou não avançar. Está no conflito que se instala entre o que se deseja e o que se considera que se pode ou deve fazer.
É este conflito, entre pulsão e norma, entre indivíduo e colectivo, que a teoria da sexualidade ajuda a explicar. Não porque tudo se resuma a desejo sexual, mas porque o mecanismo de desejo, contenção e negociação interna que Freud descreve para a sexualidade serve de modelo para pensar praticamente qualquer impulso que a vida social obriga a moderar.
O que o desejo faz quando é proibido
A repressão é, provavelmente, o conceito freudiano mais citado e mais mal compreendido. A ideia central pode resumir-se numa frase curta: o desejo não desaparece simplesmente porque foi proibido.
Na teoria freudiana, um desejo ou uma representação que a consciência considera inaceitável pode ser afastado dela, empurrado para aquilo que Freud chama inconsciente. Mas continuar afastado não significa deixar de existir. Continua a exercer influência, só que por vias indirectas.
Freud aponta para fenómenos como sonhos com conteúdos estranhos, lapsos de linguagem em que se diz uma coisa por outra, actos falhados como esquecer sistematicamente um compromisso, ou sintomas sem causa física aparente. Para a psicanálise, estes são sinais de que algo reprimido continua activo, à procura de uma saída.
Vale a pena ser directo aqui: esta é uma interpretação psicanalítica, não uma explicação hoje consensual dentro da psicologia científica. A neurociência e a psicologia cognitiva contemporâneas explicam muitos destes fenómenos por outras vias, sem recorrer ao conceito de inconsciente reprimido tal como Freud o formulou. Isso não anula o valor da ideia como ferramenta interpretativa, apenas coloca-a no lugar certo: uma teoria, não um facto estabelecido.
Quando o impulso vira outra coisa
Se a repressão é o desejo escondido, a sublimação é o desejo transformado. Freud propõe que a mesma energia pulsional que move o desejo pode ser desviada para actividades que a sociedade reconhece e valoriza, sem que isso implique satisfação directa do impulso original.
Criação artística, investigação científica, escrita, trabalho, actividade intelectual: todos estes campos podem, segundo a teoria, funcionar como destinos para energia que não encontrou satisfação directa noutro lugar.
É aqui que vale a pena travar uma simplificação muito comum, quase tão popular como a frase que abriu este artigo: dizer que, para Freud, arte é sexo. Não é. A sublimação não transforma um quadro ou um romance em substituto de um acto sexual. Descreve um mecanismo bem mais complexo, em que a energia pulsional muda de alvo e de forma, deixando de ter qualquer relação directa e reconhecível com a sua origem.
O complexo de Édipo
Nenhuma discussão sobre sexualidade em Freud fica completa sem passar pelo complexo de Édipo, embora valha a pena tratá-lo pelo que é: um conceito específico da teoria psicanalítica, não um facto universal sobre todas as famílias.
A ideia, situada na fase fálica descrita atrás, propõe que a criança pequena desenvolve um vínculo de desejo intenso por um dos progenitores e, ao mesmo tempo, rivalidade com o outro. Este conflito, segundo Freud, não se resolve por confronto directo, mas por identificação: a criança acaba por se identificar com o progenitor rival, incorporando os seus valores e regras. É, na leitura freudiana, um dos momentos fundadores da formação da personalidade e da consciência moral.
É também, hoje, um dos pontos mais discutidos e revistos da obra de Freud, inclusive por psicanalistas posteriores que propuseram versões alternativas ou mais amplas do mesmo conflito. Vale como peça central da teoria, não como descrição comprovada do desenvolvimento psíquico de todas as crianças.
Desejo, afecto e vínculo
Um dos pontos onde a teoria freudiana se afasta mais claramente do senso comum sobre sexualidade é na forma como liga desejo a afecto. Para Freud, a libido não explica apenas atracção física. Ajuda a explicar por que razão nos ligamos afectivamente a certas pessoas, por que certos vínculos se tornam intensos e difíceis de largar, por que identificação e desejo tantas vezes andam juntos.
Pense-se na relação entre um filho adulto e os pais, numa amizade profunda que dura décadas, ou no vínculo entre duas pessoas que se apoiaram numa fase difícil da vida. Nenhuma destas relações precisa de envolver desejo sexual para que a teoria freudiana lhes reconheça uma componente libidinal, no sentido lato de investimento de energia psíquica em outra pessoa, com prazer, identificação e por vezes conflito envolvidos. É esta amplitude, entre desejo, afecto, identificação e vínculo, que torna a palavra sexualidade, em Freud, muito mais difícil de traduzir para linguagem comum do que parece à primeira vista.
Freud estava certo?
Aqui vale a pena separar quatro coisas que costumam andar misturadas.
| Plano | O que significa |
|---|---|
| O que Freud propôs | Uma teoria sobre libido, pulsões, repressão e desenvolvimento psicossexual, construída a partir da sua prática clínica em Viena, no final do século dezanove e início do vinte. |
| O que teve influência histórica | Uma marca profunda na literatura, no cinema, na filosofia e na própria linguagem com que ainda hoje falamos de inconsciente, repressão e trauma. |
| O que permanece controverso | A validade científica de várias formulações, sobretudo as ligadas à sexualidade infantil e ao complexo de Édipo, e a centralidade que Freud atribuiu ao desejo sexual em relação a outras explicações do comportamento humano. |
| O que não se deve confundir | Uma teoria histórica da mente, por mais influente que tenha sido, não equivale automaticamente ao conhecimento científico actual sobre comportamento humano. |
É possível reconhecer a importância histórica de Freud sem aceitar cada uma das suas formulações como verdade definitiva. É também possível descartar partes da teoria sem negar que ela mudou, de forma duradoura, a forma como pensamos sobre desejo, mente e comportamento. As duas coisas cabem na mesma frase, e é aí que a resposta séria à pergunta do título se torna mais interessante do que qualquer piada sobre charutos.
Do impulso ao comportamento
Um esquema simples ajuda a fixar o percurso que este artigo seguiu, do impulso bruto até ao comportamento visível.
O conflito, ao centro, é o ponto onde a pulsão encontra a norma social. Consoante o desfecho, o mesmo impulso pode ser reprimido, controlado conscientemente, ou transformado por sublimação numa actividade socialmente aceite.
Três perguntas, uma questão mais funda
Freud achava que tudo era sexo? Não exactamente. É uma simplificação que rende piada, mas perde a teoria pelo caminho.
Então o que Freud entendia por sexualidade? Um conceito bem mais amplo do que o acto sexual, ligado a pulsões, libido, prazer, desejo e ao desenvolvimento inteiro da vida psíquica, desde a infância até à vida adulta.
E porque é que isto foi tão importante? Porque Freud usou essa concepção alargada para interpretar algo que continua a intrigar quem quer que pense sobre a própria mente: a relação entre o que desejamos, o que reprimimos, o que a sociedade exige de nós e aquilo que, sem sabermos bem porquê, continuamos a fazer.
Fica então a pergunta que talvez interesse mais do que qualquer resposta sobre Freud ter razão ou não. Até que ponto somos governados por desejos que compreendemos, e até que ponto somos movidos por forças psíquicas que nunca chegamos a reconhecer por inteiro?
Perguntas frequentes
Freud usava a palavra sexualidade no mesmo sentido que usamos hoje?
Não. Freud usava sexualidade num sentido bem mais alargado, ligado a libido, prazer e pulsão, e não apenas ao acto sexual ou à reprodução.
A teoria da sexualidade infantil significa que Freud dizia que crianças têm desejo sexual adulto?
Não. Freud referia-se a fontes de prazer corporal ligadas ao desenvolvimento, num sentido muito distinto da actividade sexual adulta.
O complexo de Édipo é aceite pela psicologia actual?
É um conceito central da teoria psicanalítica, mas é também um dos pontos mais discutidos e revistos da obra de Freud, inclusive por psicanalistas posteriores.
Sublimação quer dizer que a arte é uma forma disfarçada de sexo?
Não. A sublimação descreve a energia pulsional a ser canalizada para outras actividades, sem relação directa e reconhecível com a sua origem. Reduzir arte a sexo é uma simplificação que a própria teoria rejeita.
A psicanálise freudiana é considerada ciência?
É uma questão em aberto. Várias formulações de Freud, sobretudo as ligadas à sexualidade infantil, carecem de validação segundo os critérios da ciência contemporânea, ainda que a sua influência histórica e cultural seja inegável.
Referências
- 1905Sigmund Freud, Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade
- 1920Sigmund Freud, Além do Princípio do Prazer
- 1923Sigmund Freud, O Eu e o Id
- 1930Sigmund Freud, O Mal-Estar na Civilização
