Onde estão hoje as crianças que nasceram com microcefalia causada pelo Zika?
Entre 2015 e 2016, o Brasil viveu a maior epidemia de Zika já registada, e milhares de bebés nasceram com alterações cerebrais associadas ao vírus. Dez anos depois, essas crianças já não são notícia. Continuam, porém, a precisar de cuidados, e as suas famílias continuam a precisar de respostas.
As imagens ficaram gravadas na memória de quem acompanhou aqueles anos: maternidades do Nordeste brasileiro cheias de bebés com a cabeça visivelmente mais pequena do que o esperado, mães assustadas sem saber o que teria acontecido durante a gravidez, médicos a tentar perceber, em tempo real, uma doença que ninguém via daquela forma até então. Passada uma década, uma pergunta ficou por responder para a maior parte do público: o que aconteceu com aqueles bebés depois que cresceram?
Este artigo tenta responder a essa pergunta com base em estudos científicos publicados em revistas como o The Lancet, o New England Journal of Medicine, o JAMA Network Open e em dados do Ministério da Saúde do Brasil e da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/PAHO). Não há aqui espaço para generalizações fáceis. Algumas dessas crianças têm hoje limitações profundas e precisam de cuidados permanentes. Outras, expostas ao mesmo vírus, cresceram sem sinais visíveis de doença. Entre esses dois extremos, existe um espectro inteiro de situações que a cobertura mediática da época raramente teve tempo de explicar.
A epidemia que mudou o Brasil
O vírus Zika já circulava silenciosamente na América do Sul havia algum tempo quando, em Outubro de 2015, médicos de Pernambuco começaram a notar algo fora do habitual: um número incomum de recém-nascidos com a cabeça significativamente menor do que a média. As mães desses bebés relatavam, quase todas, o mesmo pormenor: uma erupção cutânea e febre ligeira durante a gravidez, sintomas que na altura pareciam banais.
A 11 de Novembro de 2015, o Ministério da Saúde do Brasil declarou Emergência de Saúde Pública de Importância Nacional. Até ao final desse ano, já tinham sido notificados 4.180 casos suspeitos de microcefalia em todo o país, a esmagadora maioria concentrada no Nordeste. Em Fevereiro de 2016, a Organização Mundial da Saúde elevou a situação a Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional, reconhecendo formalmente a ligação suspeita entre a infecção durante a gravidez e as alterações no feto.
Os números cresceram rapidamente nos meses seguintes. Um levantamento publicado na revista The Lancet, que cruzou dados de vigilância do Ministério da Saúde entre Janeiro de 2015 e Novembro de 2016, confirmou 1.950 casos de microcefalia associada a infecção congénita nesse período, com 70,4% concentrados na região Nordeste. Outro levantamento, referente a Novembro de 2015 até Julho de 2016, contabilizou 8.301 notificações de microcefalia, número mais alto porque inclui casos ainda em investigação e não apenas os já confirmados. Até ao final de 2016, segundo a OPAS/PAHO, 22 países e territórios das Américas já tinham reportado 2.439 casos de síndrome congénita associada ao Zika, a grande maioria no Brasil.
Essa diferença entre números “notificados” e números “confirmados” explica por que razão é comum encontrar estatísticas diferentes sobre a mesma epidemia. Cada estudo usa um período, uma definição de caso e um critério de confirmação ligeiramente distintos. Isso não significa que os dados sejam contraditórios, apenas que medem coisas parecidas de formas diferentes.
Para as famílias, os números importavam menos do que o que estava a acontecer dentro de casa. Uma geração inteira de pais, sobretudo mães, viu-se de repente a lidar com consultas médicas frequentes, exames que ninguém sabia explicar bem e um sistema de saúde que também estava a aprender, ao mesmo tempo que elas, o que era aquela síndrome nova.
A relação entre o Zika e a microcefalia só foi oficialmente reconhecida pelas autoridades brasileiras em Novembro de 2015, quase um ano depois de o vírus já estar a circular no país. Antes disso, o Zika era considerado uma doença ligeira, semelhante à dengue, sem associação conhecida com problemas na gravidez.
Microcefalia era apenas uma parte do problema
Um erro comum, ainda hoje, é tratar “microcefalia” e “síndrome congénita do Zika” como sinónimos. Não são. A microcefalia (cabeça com um perímetro cefálico significativamente menor do que o esperado para a idade e o sexo do bebé) é apenas o sinal mais visível e mais fácil de medir à nascença. A síndrome congénita do Zika é um conjunto muito mais amplo de alterações que o vírus pode provocar no sistema nervoso central em desenvolvimento.
A Organização Pan-Americana da Saúde actualizou, em Julho de 2016, a caracterização clínica dessa síndrome, depois de uma reunião com cientistas do Brasil, da Colômbia, da Argentina e dos Estados Unidos. Ficou definido que o quadro pode incluir, além da microcefalia:
- alterações estruturais do cérebro, visíveis em exames de imagem, como calcificações e malformações no desenvolvimento do córtex;
- epilepsia, muitas vezes de início precoce, já no primeiro ano de vida;
- alteração do tónus muscular, com espasticidade ou rigidez nos membros;
- contracturas articulares congénitas (artrogripose), que limitam o movimento de braços e pernas;
- problemas oftalmológicos, incluindo alterações da retina e do nervo óptico;
- perda auditiva de origem neurossensorial;
- dificuldades de deglutição, que em casos graves exigem sonda para alimentação;
- atraso no desenvolvimento motor, cognitivo e da linguagem.
É por isso que o tamanho da cabeça, medido isoladamente, diz pouco sobre a extensão real da lesão neurológica. Uma criança pode nascer com perímetro cefálico dentro dos limites considerados normais e, ainda assim, apresentar alterações significativas no cérebro, detectáveis apenas por ressonância magnética ou tomografia. O inverso também acontece: bebés com microcefalia ligeira, à nascença, evoluíram sem grandes sequelas motoras. A medida da cabeça é um sinal de alerta, não um diagnóstico completo.
Segundo orientação técnica dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), publicada em 2017, a síndrome congénita do Zika pode afectar o sistema nervoso, os olhos, os ouvidos e o sistema osteoarticular ao mesmo tempo, o que exige acompanhamento por várias especialidades médicas em simultâneo, e não apenas por um único médico.
O que os estudos encontraram quando as crianças cresceram
Os primeiros dados sérios sobre o desenvolvimento a médio prazo destas crianças começaram a sair por volta de 2017 e 2018, quando os bebés nascidos no pico da epidemia completavam entre um e três anos de idade. Um relatório dos CDC, publicado em 2017/2018, acompanhou 19 crianças com microcefalia e evidência laboratorial de infecção congénita por Zika, avaliadas entre os 19 e os 24 meses de idade. Os resultados eram preocupantes: a maioria apresentava atraso grave do desenvolvimento motor, alterações do tónus e uma frequência elevada de epilepsia.
Estudos brasileiros posteriores, com acompanhamento de dois anos, confirmaram esse padrão em crianças diagnosticadas com a síndrome. Numa coorte avaliada dos 4 aos 24 meses de idade, 71% das 38 crianças acompanhadas desenvolveram epilepsia, com início mediano aos seis meses de vida, e mais de 80% apresentavam tetraparesia espástica (rigidez e fraqueza nos quatro membros) em todas as idades avaliadas. Noutra coorte, no Mato Grosso do Sul, sete em onze crianças acompanhadas durante dois anos tinham diagnóstico de epilepsia, três delas com síndrome de West, uma forma grave que surge nos primeiros meses de vida.
Um estudo com 69 crianças com paralisia cerebral associada à síndrome, acompanhadas até aos dois anos num hospital de reabilitação, identificou três factores associados a pior prognóstico: perímetro cefálico pequeno à nascença, presença de artrogripose e epilepsia de início precoce. São, hoje, considerados marcadores de alerta para equipas de reabilitação.
Nada disto, porém, se aplica da mesma forma a todas as crianças expostas ao vírus durante a gestação. É essa a distinção central que qualquer relato sério sobre o tema precisa de manter clara.
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Exposição ao Zika não é o mesmo que síndrome congénita
Nem toda a mulher infectada pelo Zika durante a gravidez teve um bebé afectado. As estimativas de risco variam, dependendo sobretudo do trimestre em que ocorreu a infecção, mas rondam entre 5% e 12% de probabilidade de o bebé nascer com algum sinal da síndrome, sendo o primeiro trimestre o período de maior risco. Isto quer dizer que a grande maioria das gravidezes com exposição confirmada ao vírus resultou em bebés sem sinais clínicos da síndrome à nascença.
E mesmo dentro do grupo de crianças que nasceram sem microcefalia, mas com exposição confirmada ao Zika, os estudos de seguimento têm encontrado resultados relativamente tranquilizadores. Uma investigação com 235 crianças expostas ao vírus, mas sem microcefalia à nascença, avaliadas com a escala Bayley-III até aos 42 meses de vida, encontrou apenas 9,4% com atraso cognitivo ligeiro a moderado, uma diferença que os próprios investigadores classificaram como estatisticamente limítrofe em relação ao grupo de controlo, que não teve nenhum caso. Nas áreas de linguagem e motricidade, praticamente não houve diferença entre expostas e não expostas.
Outro estudo, com crianças não microcefálicas de uma coorte no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte, chegou a conclusão semelhante: a maioria teve desenvolvimento dentro do esperado, embora um pequeno grupo tenha apresentado alterações neurológicas mais sérias, incluindo casos de paralisia cerebral, epilepsia e perturbações do espectro do autismo. Uma série de casos com crianças não microcefálicas expostas ao vírus registou 65,4% com desempenho satisfatório em todos os domínios do desenvolvimento avaliados, e 19,2% com alterações neurológicas graves.
Uma coorte na Paraíba, com 120 crianças por volta dos dois anos de idade, mostrou como o risco varia consoante os critérios reunidos à nascença: entre as crianças que cumpriam simultaneamente critérios físicos (microcefalia ou outras alterações visíveis) e laboratoriais de infecção, 60% apresentavam comprometimento grave em múltiplas áreas. Entre as que cumpriam apenas o critério laboratorial, sem sinais físicos, essa proporção caía para 5%. Nenhuma criança com alteração apenas antropométrica, sem confirmação laboratorial, foi classificada como gravemente afectada.
A leitura destes números é simples de enunciar, ainda que difícil de comunicar sem simplificar demais: quanto mais sinais estruturais a criança apresenta à nascença, maior a probabilidade de sequelas graves mais tarde. Quanto menos sinais, mais próximo tende a ser o desenvolvimento do de uma criança não exposta. Mas há excepções nos dois sentidos, e é por isso que o acompanhamento médico individual continua a ser recomendado para toda a criança com exposição confirmada, mesmo sem sinais no nascimento.
A cabeça das crianças voltou ao tamanho normal?
Não, de um modo geral, não. E a razão tem mais a ver com o cérebro do que com o crânio.
A microcefalia associada ao Zika não resulta de um crânio que simplesmente cresceu pouco. Resulta de uma lesão no tecido cerebral em formação, provocada pelo vírus durante um período crítico da gestação, em que as células que dão origem aos neurónios estão a multiplicar-se a grande velocidade. Quando essas células são destruídas ou têm o seu desenvolvimento interrompido, o cérebro que se forma depois é menor e, em muitos casos, estruturalmente diferente do esperado. O crânio cresce, em larga medida, em resposta ao crescimento do cérebro que envolve. Se o cérebro não recupera esse volume perdido, o crânio também não o faz.
Um estudo publicado em 2021, que comparou o crescimento do perímetro cefálico até aos 36 meses de idade em crianças com e sem microcefalia à nascença, encontrou um padrão que surpreendeu os próprios investigadores: mesmo bebés que nasceram sem microcefalia, mas com exposição confirmada ao vírus, mostraram uma queda acentuada no crescimento da cabeça já pelos seis meses de idade, aproximando-se dos valores das crianças que já tinham microcefalia à nascença. Nas crianças que já nasceram com microcefalia, o perímetro cefálico caiu de forma semelhante nos primeiros seis meses, mas depois estabilizou.
Este achado sugere que o efeito do vírus sobre o cérebro pode continuar a manifestar-se depois do nascimento, e não apenas durante a gravidez, um dos aspectos ainda em investigação sobre a síndrome. Em qualquer dos casos, o crescimento do corpo da criança (altura, peso, desenvolvimento físico geral) segue, em muitos casos, um percurso relativamente independente do crescimento cerebral. Uma criança pode crescer normalmente em altura e continuar a apresentar um perímetro cefálico pequeno para a idade, porque o problema nunca esteve no osso, esteve no cérebro que esse osso protege.
A microcefalia é definida, segundo o critério adoptado pelo Ministério da Saúde do Brasil a partir de Dezembro de 2015, como um perímetro cefálico inferior a 32 centímetros em bebés nascidos de termo. Em bebés prematuros, o critério compara a medida com tabelas de referência ajustadas à idade gestacional.
Todas as crianças ficaram gravemente afectadas?
Não. E vale a pena repetir: não.
A síndrome congénita do Zika manifesta-se ao longo de um espectro amplo, que vai de casos praticamente sem sinais visíveis até quadros de deficiência múltipla grave, com dependência total de cuidados. Colocar todas as crianças expostas ao vírus dentro da mesma categoria, seja para dramatizar a tragédia, seja para minimizar o problema, distorce a realidade em ambas as direcções.
Os dados citados nas secções anteriores mostram esse espectro com alguma clareza. Entre as crianças com microcefalia grave e diagnóstico confirmado de síndrome congénita, a maioria desenvolveu, de facto, quadros neurológicos severos: paralisia cerebral, epilepsia de difícil controlo, dependência de cuidados para alimentação e mobilidade. Entre as crianças expostas ao vírus mas sem sinais estruturais à nascença, a esmagadora maioria teve um desenvolvimento próximo do típico, com apenas uma pequena parcela a apresentar dificuldades ligeiras, sobretudo na área cognitiva ou da linguagem.
Não existe, actualmente, um número único e consensual que diga “X% das crianças expostas ficaram gravemente afectadas”, porque os estudos usam amostras, critérios e regiões diferentes, e porque uma parte importante das crianças expostas nunca foi incluída em nenhuma coorte de acompanhamento de longo prazo. O que existe é um padrão consistente entre estudos distintos: a gravidade das sequelas está fortemente associada à presença de sinais estruturais claros no início da vida, sobretudo microcefalia acentuada, alterações visíveis em exames de imagem e epilepsia precoce.
Isto não é motivo para falsa esperança generalizada, nem para resignação generalizada. É motivo para acompanhamento individualizado, criança a criança, exame a exame.
Quando ocorreu a grande epidemia de Zika associada à microcefalia no Brasil?
Uma mulher infectada pelo Zika durante a gravidez terá sempre um bebé com síndrome congénita?
A microcefalia é a única consequência possível da síndrome congénita do Zika?
Todas as crianças expostas ao Zika durante a gestação desenvolveram deficiência grave?
Por que razão o acompanhamento médico destas crianças continua anos depois do nascimento?
Obrigado por testar os seus conhecimentos sobre o Zika e a síndrome congénita.
E a mortalidade?
Esta é, talvez, a secção mais difícil de escrever, e também uma das mais importantes.
O estudo mais robusto sobre o tema foi publicado em 2022 no New England Journal of Medicine, assinado por investigadores da London School of Hygiene & Tropical Medicine, da Fundação Oswaldo Cruz e da Universidade Federal da Bahia. A equipa cruzou os registos de nascimento, notificação de casos e óbitos de mais de 11,7 milhões de crianças nascidas no Brasil entre Janeiro de 2015 e Dezembro de 2018, acompanhando-as até aos 36 meses de idade.
Os resultados mostraram uma taxa de mortalidade de 52,6 óbitos por 1.000 pessoas-ano entre crianças com síndrome congénita do Zika confirmada ou provável, contra 5,6 óbitos por 1.000 pessoas-ano entre crianças sem a síndrome, uma diferença de cerca de 11 vezes. Entre bebés nascidos a termo (sem prematuridade), o risco de morte chegou a ser 14,3 vezes mais alto nas crianças com a síndrome. Do total de 3.308 bebés com diagnóstico confirmado ou provável incluídos no estudo, 398 (12%) morreram antes de completar três anos, contra cerca de 1% entre as crianças sem a síndrome.
| Indicador | Com síndrome congénita do Zika | Sem a síndrome |
|---|---|---|
| Taxa de mortalidade (por 1.000 pessoas-ano, até aos 3 anos) | 52,6 | 5,6 |
| Proporção de óbitos no período estudado | 12% (398 de 3.308) | ~1% (120.629 de 11,4 milhões) |
| Risco relativo de morte (bebés nascidos a termo) | 14,3 vezes mais alto | referência |
Fonte: Paixão et al., “Mortality from Congenital Zika Syndrome: Nationwide Cohort Study in Brazil”, New England Journal of Medicine, 2022.
Um estudo complementar, publicado em Janeiro de 2025 na revista JAMA Network Open, alargou o período de seguimento até aos cinco anos de idade e confirmou o padrão: o risco de morte manteve-se 13,1 vezes mais alto entre as crianças com a síndrome. As causas específicas com maior diferença de risco foram doenças do sistema nervoso (57,1 vezes mais frequentes como causa de morte), doenças respiratórias (30,3 vezes) e infecções (28,3 vezes).
Uma análise das certidões de óbito de 403 crianças com síndrome congénita do Zika falecidas até aos 36 meses, publicada separadamente, mostrou que 81,9% desses óbitos ocorreram antes do primeiro ano de vida. As causas mais frequentemente registadas incluíam malformações congénitas múltiplas, septicemia e insuficiência respiratória neonatal, complicações associadas às formas mais graves da síndrome, sobretudo em crianças com microcefalia acentuada, baixo peso ao nascer ou parto prematuro.
Quanto a saber quantas das crianças nascidas durante a grande epidemia de 2015 e 2016 continuam vivas hoje, em 2026, não existe um número nacional actualizado e suficientemente robusto disponível publicamente. Os estudos de mortalidade mais completos cobrem, na sua maioria, os primeiros três a cinco anos de vida. Para os anos seguintes, a informação disponível é mais fragmentada, reunida sobretudo através de coortes regionais de acompanhamento clínico, e não através de um registo nacional contínuo. Nesta situação, a resposta correcta é reconhecer o limite dos dados, não inventar um número que pareça mais tranquilizador ou mais alarmante do que aquilo que a ciência consegue, hoje, confirmar.
Onde estão essas crianças hoje?
As crianças nascidas no auge da epidemia, entre finais de 2015 e 2016, têm hoje, em 2026, aproximadamente dez a onze anos de idade. Já não são bebés nem crianças pequenas. Estão, muitas delas, no ensino primário, numa fase da vida em que as necessidades mudam bastante em relação à primeira infância.
Um estudo publicado em Setembro de 2025 na revista Viruses acompanhou 38 crianças com síndrome congénita do Zika, todas já com cinco anos ou mais, num centro de referência do Nordeste brasileiro. Os investigadores encontraram uma melhoria significativa no crescimento em altura ao longo do tempo, mas sem o correspondente ganho de peso, o que resultou numa classificação de índice de massa corporal a piorar em parte das crianças acompanhadas. É um sinal de que, mesmo anos depois do diagnóstico inicial, o acompanhamento nutricional continua a ser uma necessidade real e específica desta população, distinta dos cuidados neurológicos.
Para as crianças com formas mais graves da síndrome, a rotina aos dez ou onze anos costuma incluir várias frentes de cuidado em simultâneo: fisioterapia para manter a mobilidade articular e prevenir contracturas, terapia ocupacional para ganhar autonomia nas actividades diárias, consultas neurológicas regulares para ajustar a medicação anticonvulsivante quando há epilepsia, acompanhamento oftalmológico e auditivo, e, nalguns casos, apoio nutricional especializado, sobretudo quando há dificuldades de deglutição.
É importante repetir aqui o que já foi dito antes: nem todas as crianças precisam do mesmo tipo nem da mesma intensidade de cuidados. Uma criança com síndrome ligeira pode ter alta do acompanhamento neurológico regular e manter apenas consultas de rotina. Uma criança com paralisia cerebral grave e epilepsia refractária pode continuar a depender de cuidados quase diários. O rótulo “síndrome congénita do Zika” cobre as duas situações, e é por isso que ele diz menos do que parece dizer, se usado sozinho, sem outros detalhes clínicos.
O peso sobre as famílias
A epidemia de Zika não terminou quando o número de novos casos começou a cair, em 2017. Para muitas famílias, foi ali que uma nova fase começou, e essa fase ainda não acabou.
Estudos brasileiros sobre o impacto social da síndrome, conduzidos sobretudo em famílias do Nordeste, região mais atingida pela epidemia, descrevem um padrão recorrente: mães, na maioria dos casos, tornaram-se as principais cuidadoras das crianças com formas mais graves da síndrome, muitas vezes abandonando ou reduzindo a actividade profissional para conseguir acompanhar consultas, terapias e internamentos frequentes. Essa perda de rendimento chega numa altura em que as despesas da família aumentam, não diminuem: consultas com especialistas, medicamentos, fraldas geriátricas para crianças maiores sem controlo dos esfíncteres, cadeiras de rodas adaptadas, deslocações frequentes até centros urbanos onde existem serviços de reabilitação especializados, muitas vezes distantes das cidades de origem das famílias.
O acesso à reabilitação continua desigual entre regiões. Famílias que vivem perto de grandes centros como Recife ou Salvador conseguem, em geral, um acompanhamento mais regular do que famílias em municípios pequenos do interior, onde a oferta de fisioterapeutas pediátricos especializados em síndrome congénita do Zika ainda é limitada. Isso cria, na prática, dois níveis de cuidado dentro do mesmo país, para a mesma condição.
As redes familiares alargadas, avós, tias, vizinhos, aparecem repetidamente nos relatos como um factor decisivo para a qualidade de vida das crianças e das mães cuidadoras. Onde essas redes existem e funcionam, a sobrecarga tende a ser mais distribuída. Onde não existem, o peso recai quase inteiramente sobre uma única pessoa, geralmente a mãe.
Um estudo publicado em 2025 sobre amamentação em crianças com microcefalia associada à síndrome congénita do Zika sugeriu que a amamentação prolongada esteve associada a menor risco de desnutrição e falha de crescimento nestas crianças, reforçando a importância do apoio às mães nos primeiros meses após o diagnóstico.
Uma epidemia que desapareceu das notícias, mas não das famílias
Há uma diferença que vale a pena marcar com clareza: o fim de uma emergência epidemiológica não é o mesmo que o fim das consequências dessa epidemia.
A emergência de saúde pública relacionada com o Zika foi oficialmente encerrada pela Organização Mundial da Saúde em Novembro de 2016, menos de um ano depois de ter sido declarada. O número de novas infecções caiu de forma consistente nos anos seguintes, e o Zika deixou, com razão, de dominar as manchetes internacionais. Mas as crianças que já tinham nascido com a síndrome continuaram a crescer, a precisar de terapias, a passar por cirurgias ortopédicas, a enfrentar crises convulsivas, muito depois de o vírus ter deixado de ser assunto de primeira página.
É esse o desfasamento que este artigo tentou descrever: entre o tempo da notícia, que é rápido e depois esquece, e o tempo da doença crónica, que é lento e não esquece ninguém. O Zika deixou uma geração inteira de crianças brasileiras que, dez anos depois, continua a precisar de acompanhamento, umas mais, outras menos, mas quase todas mais do que uma criança nascida sem essa exposição.
Linha do tempo: da epidemia aos dias de hoje
Aumento súbito de casos de microcefalia é detectado em Pernambuco, no Nordeste do Brasil. Em Novembro, o Ministério da Saúde declara Emergência de Saúde Pública de Importância Nacional. Até ao final do ano, 4.180 casos suspeitos já tinham sido notificados.
Em Fevereiro, a OMS declara Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional. Em Julho, a OPAS/PAHO actualiza a caracterização clínica da síndrome congénita do Zika, reconhecendo um leque mais amplo de sinais além da microcefalia. É o ano de pico da epidemia em quase todo o Brasil.
A emergência internacional é encerrada em Novembro de 2016 e o número de novos casos continua a cair ao longo de 2017. Ao mesmo tempo, começam a ser publicados os primeiros estudos de acompanhamento das crianças nascidas com a síndrome, agora com mais de um ano de idade.
Muitas das crianças nascidas no pico da epidemia têm, nesta altura, entre dois e três anos de idade. Estudos publicados neste período, incluindo o relatório dos CDC sobre 19 crianças avaliadas aos 19-24 meses, documentam atrasos de desenvolvimento graves e epilepsia frequente nos casos com síndrome confirmada.
Sucedem-se estudos de acompanhamento aos dois anos de idade, com dados mais detalhados sobre paralisia cerebral, epilepsia e desenvolvimento motor. Em 2022, o New England Journal of Medicine publica o maior estudo de mortalidade já feito sobre a síndrome, baseado em mais de 11 milhões de nascimentos.
Novos estudos alargam o seguimento até aos cinco anos de idade e além, incluindo dados sobre crescimento e estado nutricional de crianças já em idade escolar. Em 2026, as crianças nascidas durante a grande epidemia de 2015-2016 têm aproximadamente dez a onze anos.
Perguntas frequentes
O que aconteceu às crianças que nasceram com microcefalia por Zika?
Depende muito da gravidade do quadro à nascença. As crianças com microcefalia acentuada e alterações estruturais claras no cérebro tendem a apresentar, anos depois, quadros neurológicos significativos, como paralisia cerebral e epilepsia, exigindo acompanhamento médico contínuo. Casos mais ligeiros tiveram evolução mais favorável. Não existe um desfecho único válido para todas.
Todas as crianças expostas ao Zika nasceram com microcefalia?
Não. A maioria das gravidezes com infecção confirmada pelo vírus resultou em bebés sem microcefalia nem outros sinais clínicos evidentes à nascença. As estimativas de risco de síndrome congénita, por gravidez com infecção confirmada, situam-se entre 5% e 12%, dependendo sobretudo do trimestre da infecção.
A microcefalia desaparece à medida que a criança cresce?
Regra geral, não. A microcefalia reflecte uma lesão no desenvolvimento do cérebro, não apenas um atraso no crescimento do crânio. Como o cérebro afectado não recupera o volume perdido durante a gestação, o perímetro cefálico tende a manter-se reduzido ao longo da infância, mesmo com crescimento normal em altura e peso.
Quais são as consequências da síndrome congénita do Zika?
Podem incluir microcefalia, alterações estruturais do cérebro, epilepsia, alteração do tónus muscular, contracturas articulares, problemas de visão e de audição, dificuldades de deglutição e atraso no desenvolvimento motor, cognitivo e da linguagem. A gravidade varia muito de criança para criança.
As crianças afectadas pelo Zika podem chegar à idade adulta?
Muitas sim, sobretudo as que sobrevivem aos primeiros anos de vida, período em que o risco de morte é mais elevado. Estudos mostram que o risco de morte é significativamente mais alto entre crianças com síndrome congénita do Zika do que entre crianças sem a síndrome, especialmente antes dos cinco anos, mas grande parte das crianças diagnosticadas continua viva e a crescer, com necessidades de cuidados que variam conforme a gravidade do quadro.
Quantas crianças afectadas pelo Zika ainda vivem hoje?
Não existe, actualmente, um número nacional actualizado e suficientemente robusto que responda com precisão a esta pergunta para os dias de hoje. Os estudos de mortalidade mais completos cobrem, sobretudo, os primeiros três a cinco anos de vida das crianças nascidas durante a epidemia. Para os anos seguintes, os dados disponíveis vêm principalmente de coortes clínicas regionais, não de um registo nacional contínuo, pelo que qualquer número apresentado como definitivo para o presente deveria ser encarado com cautela.
Onde posso encontrar apoio se estou a cuidar de uma criança com síndrome congénita do Zika ou outra condição neurológica?
O primeiro passo é procurar acompanhamento médico multidisciplinar junto de um centro de saúde ou hospital com experiência em reabilitação pediátrica. No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) e centros de referência como o IMIP, em Pernambuco, ou a Fiocruz, no Rio de Janeiro, têm protocolos específicos para esta população. Associações de pais de crianças com a síndrome também têm sido importantes fontes de apoio prático e emocional em várias regiões do país.
Fontes e leituras
- PAHO/WHO — Zika: the unknown epidemic and PAHO’s swift response
- PAHO/WHO — PAHO/WHO updates the characterization of Zika Congenital Syndrome (2016)
- PAHO/WHO — Timeline: Emergence of the Zika virus in the Americas
- Teixeira MG, Costa MCN, Oliveira WK, et al. The Epidemic of Zika Virus-Related Microcephaly in Brazil. American Journal of Public Health, 2016.
- Paixão ES, Cardim LL, Costa MCN, et al. Infection-related microcephaly after the 2015 and 2016 Zika virus outbreaks in Brazil. The Lancet, 2017.
- CDC — Interim Guidance for the Diagnosis, Evaluation, and Management of Infants with Possible Congenital Zika Virus Infection, MMWR, 2017.
- CDC — Health and Development at Age 19–24 Months of 19 Children Born with Microcephaly and Laboratory Evidence of Congenital Zika Virus Infection, MMWR, 2017.
- Quilião ME, Venancio FA, Mareto LK, et al. Neurological Development, Epilepsy, and the Pharmacotherapy Approach in Children with Congenital Zika Syndrome: Results from a Two-Year Follow-up Study. Viruses, 2020.
- Two-year follow-up of children with congenital Zika syndrome: the evolution of clinical patterns. 2021.
- Marques FJP, Amarante C, Elias MAC, et al. Cerebral Palsy in Children With Congenital Zika Syndrome: A 2-Year Neurodevelopmental Follow-up. 2023.
- Paixão ES, Cardim LL, Martins-Filho PR, et al. Mortality from Congenital Zika Syndrome — Nationwide Cohort Study in Brazil. New England Journal of Medicine, 2022.
- Causes of death in children with congenital Zika syndrome in Brazil, 2015 to 2018: A nationwide record linkage study.
- Cardim LL, Costa MCN, Rodrigues LC, et al. All-Cause and Cause-Specific Mortality in Children With Congenital Zika Syndrome in Brazil. JAMA Network Open, 2025.
- Case Fatality Rate Related to Microcephaly Congenital Zika Syndrome and Associated Factors: A Nationwide Retrospective Study in Brazil.
- Neurodevelopment in Children Exposed to Zika Virus: What Are the Consequences for Children Who Do Not Present with Microcephaly at Birth? Viruses, 2021.
- Functional Outcomes among a Cohort of Children in Northeastern Brazil Meeting Criteria for Follow-Up of Congenital Zika Virus Infection. American Journal of Tropical Medicine and Hygiene, 2020.
- Neurological Findings in Children without Congenital Microcephaly Exposed to Zika Virus in Utero: A Case Series Study.
- Tavares CSS, Marques RS, Ferreira JS, et al. Long-Term Nutritional Deficits and Growth Patterns in Children with Congenital Zika Virus Syndrome: Evidence from a Brazilian Cohort. Viruses, 2025.
