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Tecnologia apropriada: porque é que a mesma solução não serve para todos

Depois de falarmos de baterias no artigo anterior, chegou a hora de olhar para o quadro completo: água, cozinha, electricidade, floresta e abrigo, e a pergunta que decide se um projecto sobrevive ou morre no primeiro ano.

No artigo anterior, falámos do que a bateria guarda quando o sol se põe. Mas uma bateria, por mais bem dimensionada que esteja, não resolve nada sozinha. Ela só faz sentido dentro de um sistema pensado para o lugar onde vai viver: o clima, o bolso das pessoas, a formação técnica disponível na zona.

É esse o tema deste artigo. Chama-se tecnologia apropriada, e é o conceito que separa um projecto que continua a funcionar dez anos depois de instalado de um que se transforma em ferro-velho num depósito qualquer, seis meses depois da inauguração com fita cortada.

Água, saneamento e higiene

Água que ainda não devia ser bebida

A maior parte da água que sai de uma torneira comunitária ou de um poço aberto em zonas de baixo rendimento não é segura para beber sem tratamento. Isto não é um exagero retórico. Segundo dados recentes das Nações Unidas, cerca de 2,2 mil milhões de pessoas no mundo não tinham, em 2017, acesso a água potável gerida com segurança. Do lado do saneamento, o número sobe para 4,2 mil milhões sem acesso a instalações seguras, e quase 673 milhões de pessoas ainda praticam defecação a céu aberto, a maioria em zonas rurais.

2,2 mMpessoas sem água potável segura (2017)
4,2 mMpessoas sem saneamento seguro (2017)
2 em 5unidades de saúde sem água nem sabão

A Organização Mundial da Saúde estima que a água contaminada provoca 502 mil mortes por diarreia todos os anos. Não é um problema de falta de tecnologia sofisticada, é um problema de acesso a algo tão simples como filtração, purificação e latrinas bem construídas.

Pausa para testar

Em 2017, aproximadamente quantas pessoas não tinham acesso a água potável gerida de forma segura?


Cozinha limpa

Cozinhar mata mais do que se costuma pensar

Mais de 3 mil milhões de pessoas no mundo ainda cozinham queimando biomassa, lenha, esterco, resíduos agrícolas, muitas vezes dentro de casa, sobre lume aberto. Isto não é só desconfortável. A poluição do ar dentro de casa causada por combustíveis sólidos matou 1,6 milhões de pessoas, e mulheres e raparigas representam 6 em cada 10 dessas mortes, porque são normalmente elas quem passa mais tempo junto ao fogão.

Há ainda um custo que não aparece em estatísticas de saúde: mulheres e crianças em países em desenvolvimento podem gastar até 10 horas por semana só a recolher lenha. Dez horas que deixam de ir para a escola, para um pequeno negócio, para qualquer coisa que não seja sobreviver.

Pausa para testar

______ é usado por muitas pessoas no mundo em desenvolvimento para cozinhar, aquecer água e aquecer o espaço doméstico.


A boa notícia é que existem alternativas baratas e relativamente simples de construir: fogões melhorados que queimam menos lenha e ventilam melhor o fumo, e fornos solares que não precisam de nenhum combustível além do próprio sol.

Pausa para testar

Usar ______ para cozinhar é uma forma de reduzir a poluição do ar dentro de casa.


Electricidade

Sem luz depois do pôr-do-sol

Voltando à conversa do artigo anterior sobre baterias: elas só importam porque há gente sem electricidade nenhuma para guardar. O Banco Mundial estima que, em 2018, cerca de 789 milhões de pessoas não tinham acesso a electricidade. A taxa global de electrificação subiu de 83% em 2010 para 90% em 2018, mas o défice concentrou-se cada vez mais na África Subsariana, onde cerca de 548 milhões de pessoas, mais de metade da população da região, continuavam sem ligação.

O que muda quando a electricidade chega? Uma clínica passa a ter luz de qualidade para atender um parto à noite. Uma criança consegue estudar depois do sol se pôr, em vez de forçar os olhos à luz de uma vela. Um pequeno negócio consegue abrir mais uma hora. É pouca coisa em termos de kW, mas muda vidas inteiras.

Pausa para testar

Em 2018, quantas pessoas no mundo não tinham acesso a electricidade?


Uma das metas da Agenda 2030 da ONU para a energia é directa: duplicar a taxa global de melhoria na eficiência energética e nos serviços de energia, e expandir a infraestrutura em países em desenvolvimento para fornecer energia moderna e sustentável a todos.

Pausa para testar

Uma das Metas de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU para 2030 é ___________.


Vale notar que “ter electricidade” não significa necessariamente estar ligado à rede nacional. Um sistema solar autónomo, bem dimensionado, com a bateria certa e sem esperar por um poste que talvez nunca chegue, também conta.

Desflorestação

As árvores que desaparecem para alimentar o fogão

Grande parte da população que depende de biomassa para cozinhar retira essa lenha directamente da mata à volta. Entre 2000 e 2020, a proporção de área florestal no planeta caiu de 31,9% para 31,2% da área total de terra, uma perda líquida de quase 100 milhões de hectares de floresta. O corte cresceu sobretudo na América Latina, na África Subsariana e no Sueste Asiático, puxado em boa parte pela conversão de terra para agricultura.

Aqui entram soluções que já existem e funcionam: briquetes feitos de resíduos, biodiesel produzido a partir de óleo alimentar usado, e biodigestores que transformam esterco animal em biogás, mais o adubo orgânico que sobra do processo.

Abrigo

Um tecto que não desaba com a primeira chuva forte

O crescimento urbano acelerado, muitas vezes de gente que sai do campo à procura de trabalho, empurrou milhões de famílias para bairros informais sem infraestrutura básica. Segundo a ONU, o número de pessoas a viver em bairros informais ultrapassou 1 mil milhão em 2018, o equivalente a 24% da população urbana mundial, subindo de 23% em 2014.

Pausa para testar

Que percentagem da população urbana mundial vivia em bairros informais (slums) em 2018?


A resposta que tem funcionado em vários projectos não passa por importar materiais caros. Passa por técnicas de construção natural: adobe, blocos de terra comprimida, taipa, bambu, materiais reciclados. Baratos, disponíveis localmente, e que permitem que a própria comunidade construa e repare a sua casa sem depender de ninguém de fora.

Como escolher

Os Três A’s: o filtro que decide se um projecto sobrevive

A Practical Action, organização que se dedica há décadas a tecnologia apropriada, resume tudo isto num teste simples de três perguntas. Chamam-lhe os Três A’s, e vale a pena decorá-los antes de gastar um único metical num projecto novo.

Affordable (económico). Uma tecnologia desenhada para o mercado rico raramente é acessível a quem vive com o mínimo. Se não houver financiamento criativo, pagamento faseado, microcrédito, algo, o projecto morre no preço.

Accessible (acessível). Não basta a família conseguir pagar. Existe a infraestrutura para suportar a tecnologia? Há formação suficiente para usá-la? Existe alguém a duas horas de distância capaz de arranjar uma peça partida, ou de vender uma bateria de substituição?

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Appropriate (apropriado). Socialmente, economicamente, culturalmente. Uma tecnologia desenhada longe, para outro mercado, dificilmente encaixa nas necessidades reais de uma comunidade isolada. O que serve numa aldeia pode não servir na vizinha.

Pausa para testar

Quais são os “Três A’s de Análise” na escolha de uma tecnologia apropriada?


Utilizador final

Quem vai usar isto todos os dias, e não só no dia da inauguração

Algumas tecnologias são propositadamente simples, e essa simplicidade é a força delas. Outras, sobretudo sistemas de energia renovável, exigem gente na zona com curiosidade e capacidade técnica para as entender a fundo, não só operar botões.

Um passo que muitos projectos saltam: perguntar quanto uma família já gasta hoje em serviços de energia. Petróleo para candeeiro custa dinheiro. Essa referência diz quanto a família consegue realisticamente redirecionar para pagar um sistema solar ou um técnico que o repare mais tarde.

E o objectivo não devia ser só entregar um equipamento. Devia ser formar pessoas da própria comunidade capazes de instalar, reparar e, com o tempo, levar a tecnologia a mais gente. Quem já passou tempo numa comunidade sabe identificar quem está genuinamente entusiasmado com o projecto, e quem tem já a bagagem técnica para dar o salto mais depressa. Esses técnicos locais são, muitas vezes, a diferença entre um projecto que dura dez anos e um que para de funcionar assim que o último técnico estrangeiro vai embora.

Pausa para testar

Ao seleccionar tecnologias apropriadas para o mundo em desenvolvimento, qual é um factor importante a considerar?


Avaliar o terreno

Antes de instalar, olhar mesmo para o chão onde se vai construir

Para um projecto de abrigo, a primeira pergunta é qual material de construção natural existe ali perto. Para energia renovável, muda a lista: há um rio ou curso de água próximo? A localidade fica num vale fundo, cercado de montanhas, o que limita as horas de luz solar directa que chegam ao chão? Há sinais de vento constante e forte, visíveis nas árvores inclinadas numa única direcção, um fenómeno conhecido como “flagging”?

Muitas vezes é preciso ir buscar dados fora do local, informação de recursos solares, por exemplo, ainda que essas opções sejam mais limitadas em zonas remotas. Mas a regra não muda: quanto mais dados se conseguir reunir antes de decidir, melhores são as decisões que se tomam depois.

Pausa para testar

Ao avaliar um terreno, o que indica a presença de um bom recurso eólico?


O que ninguém quer discutir

O preço que não vem escrito no catálogo

A parte técnica costuma ser a mais fácil de resolver num projecto. O resto é que complica. Como é que as famílias vão pagar pela tecnologia nova, ou ser reembolsadas do investimento? Projectos que doam 100% do sistema, sem nenhum investimento pessoal por parte da comunidade, tendem a durar menos. Quando a pessoa investe algo do seu, cuida mais.

Há também o lado ambiental que costuma ser esquecido. Um projecto de energia renovável significa, quase sempre, mais baterias na comunidade. Sem um programa de reciclagem dessas baterias, isso pode virar um desastre ambiental em vez de uma solução.

E há a cultura. Cada comunidade tem regras e sensibilidades próprias, difíceis de perceber numa única visita de terreno. Trabalhar com uma organização local que já conhece bem aquela comunidade continua a ser a forma mais segura de evitar impactos negativos.

Por fim, há a estrutura social. Quando a electricidade chega pela primeira vez a uma comunidade, as pessoas costumam querer luz e carregamento de telemóvel primeiro, televisão depois. Electrificar só algumas casas de uma comunidade, e não todas, costuma criar tensão social. É uma decisão que devia ser da comunidade, não imposta de fora.

Pausa para testar

Qual é uma possível consequência negativa da introdução de tecnologia no mundo em desenvolvimento?


No fim, a pergunta que abre este artigo e a que fechou o artigo sobre baterias são a mesma pergunta, só vista de ângulos diferentes: não é “qual é a tecnologia mais avançada disponível”, é “qual é a tecnologia que esta comunidade específica consegue pagar, manter e fazer sua”. A resposta muda de aldeia para aldeia. E é exactamente por isso que se chama tecnologia apropriada, e não tecnologia perfeita.

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